Um conto feliz para as empresas

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Uma leitura das organizações com os contos “João e o Pé de Feijão”, “Pinóquio” e “Mais com mais dá menos”

– Mas eu não quero nem artes nem ofícios.
– Por quê?
– Porque acho que trabalhar é cansativo.
Pinoquio 

Você não é o único que acha, Pinóquio. Todas as crianças, igualmente o sentem, e os adultos? O que pensam sobre os ofícios e as artes? A função do trabalho está diretamente ligada, nos textos sagrados, ao pecado original, pois como punição, o homem se vê obrigado a ganhar o pão com o suor do próprio rosto, suor que se aplica a qualquer tipo de sacrifício.

A palavra trabalhar vem do latim tripalium e designa ação de tortura e morte. Talvez por isso ela era tão carregada de sentidos e valores inferiores pois não era coisa para gente direita, só os escravos o faziam e por isso a total falta de importância, o que justifica o desinteresse por um registro oficial da História do Trabalho.

Nos contos de fadas, ao contrário, o trabalho não só está presente como demarca funções ambivalentes: de trabalhos manuais e escravos à pacata ociosidade do rei. Exemplos não faltam, os mais comuns são os sapateiros e os alfaiates e as tecelãs. Entretanto, a maior alusão ao trabalho pode ser verificada com os contos de maior popularidade, como é o caso dos mineradores em Branca de Neve e os 7 anões, dos caçadores de lobos em Chapeuzinho Vermelho, dos serviços domésticos e até escravos acentuados em Cinderela. Já no campo da ociosidade vemos figuras meliantes representadas, muitas vezes em nossa tradição, pela onça e raposa que usam da astúcia e inteligência em prol de si e contra os outros e, a figura do rei que, muitas vezes ridicularizada, pode ser uma tentativa de desestruturar propositadamente o poder.

A teoria sobre a origem desses contos varia: há correntes que acreditam que sua origem provém de mitos e doutrinas religiosas; outros defendem que sua base faz parte de uma literatura degenerada e há quem afirma que seu material é de um sonho que passou a ser contado. A propósito, Jung já definia os contos de fadas como a anatomia do homem. Mas, o que essas histórias, a primeira vista inocentes, têm a ver com as empresas?

Condições que evidenciam a estrutura da empresa e dos contos podem ser uma pista, pois em ambos, há a construção do coletivo, incluindo sua participação, sua criatividade, sua marca a compor uma história da empresa a partir das pessoas que a fazem e vice e versa. O trabalho de construir a história das organizações e um fator especial, que por sinal, está se tornando cada vez mais usual na ambientação dos funcionários. O que eles apreendem com a história da empresa possibilita um reescrever, a partir de sua visão, missão interagindo com os demais, dentro e fora da organização.

João e o Pé de Feijão é um dos contos mais populares do folclore inglês. A história trata da saga de João e de sua viúva mãe. Contam que a família só possuía uma vaca e do seu leite comprava o pão. Mas como todo início pressupõe um fim, um triste dia o leite não veio. A mãe imediatamente mandou que a vaca fosse vendida, pois não havia mais comida em casa. João, no caminho, encontrou um homem estranho que trocou a vaca por 5 grãos de feijão mágico. A mãe, furiosa ao saber, jogou fora os feijões, e dormiram com fome.

Na calada da noite, contudo, algo de estranho acontecia, pois ao caírem na terra, os grãos mágicos começaram a crescer e cresceram toda a noite até de manhã. João ao vê a gigantesca árvore sobe nela e chega numa terra acima das nuvens com um castelo.

Uma mulher o adverte sobre o marido: um ogre carnívoro. João por sua vez, se vitimiza dizendo sentir fome, a mulher se penaliza e o deixa entrar. O ogre se aproxima, percebe pelo olfato a presença de João, mas logo é entediado por um prato que chega a mesa. Farto pelo jantar, o ogre começa a contagem das moedas de ouro, mas dorme. Nesse momento João se aproxima, apanha um saco de moedas e desce para entregar à mãe que passa a viver como uma rainha. Mas as moedas acabam e João é obrigado a subir, a passar pela mulher do ogre a se esconder dele que após o jantar traz uma galinha que põe, quando solicitada, ovos também de ouro. A cena se repete: o ogre dorme, o menino apanha a galinha e desce para a casa da mãe e vivem fartamente. Mas mesmo com a fortuna, João, pela terceira vez, sobe a terra do ogre, passa pela sua mulher, se esconde e antes que o ogre dormisse vê uma harpa que canta majestosamente. Após o cochilo de praxe, João captura a harpa, ela grita acordando o ogre que tenta apanhar João e comê-lo, mas não consegue, pois o menino desce rapidamente pela arvore, e antes que o gigante chegasse a terra, a árvore é cortada e de lá de cima, o ogre cai e morre.

Atentemo-nos para alguns elementos que julgamos cruciais nesse processo investigador e desencadeador para uma leitura voltada às organizações. Utilizaremos alguns símbolos que possam, de forma paralela, alimentar questões voltadas para as organizações.

Dada a importância dos símbolos, já se discute teorias que nos designe de animal symbolicum ao invés de animal rationale, pois não vivemos apenas num mundo puramente físico, mas num universo simbólico, onde dialogam as imagens artísticas, os símbolos míticos, os ritos religiosos e as linguagens. Talvez por isso Epicteto tenha afirmado que o que pertuba e alarma o homem não são as coisas, são suas opiniões e fantasias a respeito das coisas.

Na história de João, a atuação da vaca, é muito pequena mas de suma importância, pois ela é a origem da sustentação e por isso também é a responsável pela falta de comida, uma vez que do seu leite provinha o pão para a família. A trilogia vaca, leite e pão pode muito representar a solução inicial e o confronto com um problema uma vez que a produção se esgota, e por isso, a comercialização da vaca. Vendê-la aparentemente foi a estratégia usada para minimizar o caos inicial e ter naquela noite a saciação de suas necessidades vitais. E as outras necessidades? Como ficariam?

A vaca/leite podem muito bem representar a cadeia de serviço e produto. E um alerta quanto à descartabilidade deles. As condições a favorecer esse movimento são muitas: tecnologia de ponto, vida útil… tudo controlado e calculado para alimentar o consumo e gerar em quem compra uma saciação temporária de lucro e de poder. O poeta mineiro, já pensando na morte da vaquinha, mata o leiteiro e estando morto, não trafega mais nas cidades levando o leite e o pão.

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá -lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom pra gente ruim.
Sua lata, suas garrafas,
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
(…)E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria. (…)

Meu leiteiro tão sutil,
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.
(…)
Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

Na história, o serviço da vaca, pode também nos fazer refletir sobre a produção em tempo integral e em larga escala. Com estimulantes artificiais, cativeiros e alterações genéticas. O que antes era produzido em campo, hoje é cultivado em laboratórios – sem vácuos para erros climáticos, num regime escravocrata de produção incessante e maquinário, afinal o tempo não pára e nada mais pode ser desperdiçado, no que diz respeito a um prejuízo para a organização. Seus efeitos com isso supervalorizam uma duração cada vez mais curta das coisas, ativados por meio de modismos, tendências e moda, onde o conservador e o moderno, a vanguarda e o clássico dialogam e focam em torno dos públicos alvos.

O contexto da vaca também nos possibilita pensar se, realmente somos só aquilo que produzimos, ou se somos além do que produzimos. Para o mercado conservador e tradicional que se preocupa apenas com o resultado e não com o processo para se chegar ao resultado, a segunda opção não precisa ser nem demonstrada para não perder tempo com a escrita, a impressão e a leitura. A propósito, Machado de Assis descreve no conto O Espelho que A alma exterior daquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer (…) A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado . Nota-se a supervalorização e a necessidade da produção e o quanto o homem se torna o produto e não um serviço a favor do outro, sobre esse aspecto, acho interessante a fala de São Tomás de Aquino quando cita: Habet homo rationale et manum, ou seja, o homem possui razão e mão. Desdobrando esse conceito, percebemos que ele compartilhava da importância da mão como o órgão dos órgãos. O fato é que a mão é o órgão essencial da cultura, o iniciador da humanização, Ernst Fischer ainda complementa que a mão libertou a razão humana e produziu a consciência própria do homem . E quando a mão do homem é substituída pelas máquinas, pelas linhas de produção em larga escala…

A vaca, pode nesse caso ser associada a um instrumento de trabalho, principalmente se lembrarmos da função extra nas rodas de engenho, na adubação da terra e nos transportes. Ela pode ser comparada à organização, a partir do momento em que Peter Drucker define a organização pela sua tarefa. Em paralelo, na história, a única tarefa da vaca era em produzir leite, e por isso, não se cogitou outras possibilidades ao invés de vendê-la. Ela no entanto não foi vendida e sim trocada.

A troca dos produtos estabelece uma negociação em que ambos têm algo de valor igual ou equivalente. A idéia de troca está associada a um tempo anterior a moeda, e rege princípios de peso, valor, medida, especulação, debate, discurso e até interpretação, pois o que está em jogo é o valor da mercadoria ao invés da mercadoria. As trocas geralmente ocorrem para suprir uma necessidade e hoje percebemos a troca de dados, de informações e principalmente de contatos. Daí os eventos com finalidades especificas para os relacionamentos interpessoais, redes e networkings.

O terceiro elemento que pretendo esboçar é sobre a árvore, que pode ser vista como a substituta da vaca. Ela simboliza também a morada dos mortos, abrigo, proteção e esconderijo. Mantém um diálogo com os planos subterrâneos, aéreos e de superfície e também cresce contra a gravidade e dos lados. Cabe lembrar que a árvore cresceu de forma desastrosa, em tempo record, e de cuja altura chegou nas nuvens.

A árvore, para Jung, simboliza a vida humana, o desenvolvimento e a formação da consciência, A árvore se torna, no conto, um difusor de mundos. De um lado, na terra, a pobreza de João; do outro lado, acima das nuvens, a riqueza do ogre. E diante dessa dicotomia, podemos pensar na figura do menino diante da árvore e das condições quanto aos caminhos a serem escolhidos: escolher um dos pontos cardeais ou subir. João preferiu subir, mas o que fez subir?

Já que estamos no plano da árvore acho, de bom senso, abordar a figura de Pinóquio, pois ele é apenas um pedaço de madeira como descreve o texto:

– Que nome vou dar-lhe? – disse consigo. – Quero chamá-lo Pinóquio. Esse nome vai trazer-lhe sorte. Conheci uma família de Pinóquios (…) 
Assim que encontrou um nome para o seu boneco, começou a trabalhar com afinco, e logo lhe fez os cabelos, depois a testa, depois os olhos.
Feito os olhos, imaginem uma surpresa quando percebeu que eles se mexiam e o fitavam obstinamente.
Gepeto ficou quase chateado vendo aqueles dois olhos de madeira que o observavam e disse num tom ressentido: 
– Olhões feios de madeira, por que estão olhando pra mim?
(…) Então depois dos olhos, fez-lhe o nariz; mas o nariz, recém feito, começou a crescer; e cresce, cresce, cresce… Tornou-se em poucos minutos um narigão que não acabava mais. 
O pobre Gepeto esforçou-se para recortá-lo; mas, quanto mais ele o recortava e o encurtava, mais aquele nariz impertinente espichava.
Depois do nariz, fez-lhe a boca.
A boca ainda nem estava terminada, e começou a rir e a caçoar. 

Pinóquio conta a história de um boneco feito de madeira que atravesssa perigos por causa de sua teimosia e temperamento hostil. A história, escrita por Carlo Collodi em 1882, é a obra da literatura universal mais vendida, depois da Bíblia e do Alcorão, traduzido em 150 paises da China ao El Salvador.

A fábula ganhou popularidade e é devidamente conhecida pelo nariz do boneco que cresce de forma espantosa, porém outros ensinamentos podem ser compartilhados em níveis mais profundos.

A construção de Pinóquio pode ser bem associada ao nascimento da boneca Emilia, de Monteiro Lobato. Sobre olhares, dos bonecos e de quem os fabrica, podemos refletir um pouco sobre as funções dos objetos.

Abraham já afirmava que o objeto é um dos elementos essenciais que nos cerca. Constitui um dos dados primários do contato do indivíduo com o mundo. A idéia de objeto, talvez seja uma das características mais marcantes da pós-modernidade onde o velho e o novo, o clássico e a vanguarda, o bom gosto e o kitsch se fundem numa noção de transculturalismo e computadores. O objeto não só determina uma época, ele também dá status e destaque ao homem, pois o mundo pode ser conquistado pelos objetos, e conquistar os objetos é ter o mundo. Por isso o título Mais com mais dá menos de Bartolomeu Campos de Queirós, quando descreve que o único desejo do menino era em colecionar e ter cada vez mais e mais coisas, porém não para usar. A ostentação em ter era apenas para guardar: Comia o lanche dos colegas, usava a borracha dos outros e escrevia com letras miúdas para poupar as folhas.

Fica mais fácil compreendermos um pouco as tendências da (pós) modernidade a partir do objeto, seu significado etimológico significa lançado contra, fora. Tudo o que afeta e se oferece à vista. Sendo assim, quase tudo pode ser percebido como objeto. Uma pedra, por exemplo, não é um objeto, mas pode se tornar, desde que tenha uma função, ou seja, é a função, nesse caso que determina o ser. Característica, por sinal, assombrosa, no meio coletivo como analisa Hegel e Marx: O indivíduo se acha preso ao objeto por seu próprio desejo, depois por seu próprio prazer, depois por seu próprio pesar. Cabe também ressaltar termos como mecânico quando sujeitando o homem a repetir pela força ou pela ilusão scripts moldados. A informação passa a ser forma congelada, alterando, inclusive o sentido da linguagem num ideário capitalista que obriga o operariado a se expressar com a fala do outro, portanto um Eco, que não se resume a fala apenas, e sim a ação, como muito bem ilustra o texto de Antoine de Saint-Exupéry:

– Bom dia. Por que acabas de apagar teu lampião?
– É o regulamento, respondeu o acendedor. Bom dia.
– Que regulamento?
– É apagar meu lampião. Boa noite.
E tornou a acender
– Mas por que acabas de o acender de novo?
– É o regulamento, respondeu o acendedor.
– Eu não compreendo, disse o principezinho.
– Não é para compreender, disse o acendedor. Regulamento é regulamento. Bom dia. – e apagou o lampião 

Pinóquio transgride a tudo isso e por isso é um marginal. Critica as leis e o poder ao detectar sua própria necessidade, interesse e vontade; o sentido contrário a este é em intensificar o desejo do outro, alienando-se aos modismos e comportamentos alheios. Criam-se similares de comportamentos, opiniões e gostos como numa indústria de cosméticos ou patologias. O consumo se instala na exacerbação do objeto e das coisas. Quem ganhar, será o tirano, quem perder, fará de tudo para se tornar. Não é à-toa que Nietzsche já deixou em seus registros que em toda a criatura viva há o desejo de poder e para tal há um menu que segue, salvo exceções essas considerações:

O que se espera hoje, para usar um termo atual, do people ware, ou capital humano? Profissionais executivos com visão macrocóspica, holística de negócios e não somente de sua especialidade, e, mais importante, habilidade na tomada de decisões, sensibilidade no trato com pessoas (liderança e motivação), senso de empreendimento (entrepreneurial skills) e domínio de idiomas comercialmente utilizados (vide os mercados regionais – com a crescente importância de espanhol para nós, por exemplo) e a atualização tecnológica, política, social, de costumes, de consumo, o que implica em investimento na apropriação dos media. 

João, assim como Pinóquio desafiou o sistema, quando subiu o pé de feijão. Nota-se que a árvore do conto traz, pela primeira vez, o elemento do maravilhoso, quando a lógica do real não pode explicar e se lança a partir do imaginário outras leis da natureza para a compreensão. Mas não só de explicação vive o homem, ele antes sente e assim João o fez escalando forçosamente a árvore.

A travessia pela árvore prevê uma mudança radical em busca de maiores oportunidades, por isso a escala para cima. Ele atravessa os desafios sem saber, contudo o que o aguardava. Mas junto ao ogre, há riquezas calculáveis e as não contadas como a experiência, o crescimento e o conhecimento. O conceito de CHA (conhecimento, habilidade e atitude) também podem ser levadas em consideração na peregrinação da árvore até que ele chegasse ao mundo do gigante.

No castelo, o temível ogre possui uma apetite voraz (gustação), inclusive o texto descreve que ele é um carnívoro, por isso facilmente acabaria com o menino. O gigante sente a presença de João pelo cheiro, mas é distraído pela mulher que lhe apresenta pratos variados (visão) e cheiros apetitosos (olfato). O ogre é uma figura que se farta além da sua necessidade, por isso o sono para compensar o excesso alimentar.

Enquanto dorme, ele perde algumas moedas, a galinha que botava ovos de ouro e sua harpa. Por outro lado, João estuda o cenário, conhece os hábitos do concorrente, sabe do seu ponto fraco e no momento certo, ataca. Além da visão do menino, podemos concluir com um planejamento que foi evoluindo com o decorrer do tempo, pois a primeira e a segunda vez em que subiu a terra do gigante, foi exclusivamente pela necessidade; as moedas de ouro foram provavelmente, gastas de maneira irresponsável fazendo-o voltar. Entretanto, na sua terceira subida, não há nenhuma necessidade, a não ser o de se superar, embora a maior superação fosse o de cortar a árvore e de, com o corte, acabar com a vida do ogre.

A história sabiamente elimina a árvore, pois o que o salvou poderia levá-lo a ruína, como a vaca no inicio. João poderia entrar num jogo de desejo histérico, que segundo Lacan, tem como condição uma insatisfação; o paradoxal do desejo é o de desejar a insatisfação do desejo, o que marca uma confusão entre o desejo e o apetite. João possivelmente entraria num círculo vicioso de necessidades, investimento e conquistas cada vez maiores a partir do que representa o ogre e por isso subir cada vez mais para ter algo do outro a sua imagem. Um jogo de ilusão que é rompido com a morte do ogre. A partir de agora, João terá de buscar meios próprios para fazer prosperar e manter a fartura dos seus qualitativamente e não quantitativamente, para isso é preciso conhecimento. Platão, por sua vez, afirma que a única função do conhecimento é o autoconhecimento, sendo assim, João define a partir do autoconhecimento a imagem de si ao integrar a potencialidade do castelo, o poder do ogre e a do menino que o habita.

E as empresas o que ganham com esses contos? A resposta pode, por um ponto cartesiano, ser nada, mas possibilita aos funcionários uma oportunidade de não pararem de crescer, e com isso, ter uma organização consciente de seus valores, potencializadora e talvez, feliz. Umberto Eco em seu artigo sobre algumas funções da literatura diz que os contos não desejam mudar o destino, mas que sentimos no dedo a impossibilidade de mudá-lo. E assim, fazendo qualquer que seja a história que estejam contando, contam também a nossa, e por isso nós os lemos e os amamos. Temos necessidade de sua severa lição que nos educa para a liberdade e para a criatividade. Certamente esse é um dos atributos da arte, não de semeiar, mas de dá sementes mágicas, que, quando jogadas em terra, brotam abundantemente a fertilidade, e essa é uma das mágicas, talvez a única que inclusive é apoiada em estatutos: “fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira.”.

Pinóquio nos remete a uma preciosa lição quando deixa de ser marionete e passa a ser um homem. Agora se ele manipulará outros bonecos, a história não conta. Finaliza com a felicidade dele em não ser mais um boneco, cresceu e merecidamente, se tornou humano.


Texto desenvolvido para a palestra com o mesmo título em comemoração aos 10 anos da Alma Consultoria e Desenvolvimento Humano.


BIBLIOGRAFIA

ANDERSEN, Hans Cristian. Histórias maravilhosas de Andersen. Tradução de Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1995, p. 15.

ASSIS, Machado. Contos. Porto Alegre: L&PM Pocket, 1998, p. 28

CASHDAN, Sheldon. Os 7 pecados capitais nos contos de fadas: como os contos de fadas influenciam nossas vidas. Tradução de Maurette Brandt. Rio de Janeiro: Campus, 2000

COLLODI, Carlo. As aventuras de Pinóquio. Tradução e ilustração de Gabriella Rinaldi: Editora Iluminuras, São Paulo. SP, 2002

LOBATO. Monteiro. Memórias de Emília. Volume 4: Brasiliense. São Paulo p. 442

SAINT-EXUPÉRY. Antoine de. O pequeno Príncipe. Tradução de Dom Marcos Barbosa. 28. Ed. Rio de Janeiro: Agir, 1985

SILVA, Deonísio de. De onde vêm as palavras. Origens e curiosidades da língua portuguesa. 14. Edição: Girafa Editora. São Paulo. SP, 2004

VON FRANZ, Marie-Louise. A sombra e o mal nos contos de fada. Tradução de Maria Cristina Penteado Kujawski. 3. Ed., São Paulo: Paulus, 2002

QUEIROS, Bartolomeu Campos de. Mais com mais dá menos.

Joao e o Pé de Feijão

Peter Drucker.

Artigos:

NETO. Manuel Marcondes Machado. LOGOS. Comunicação e Universidade. In. O impacto das novas tecnologias: mais um mito da pós-modernidade. Rio de Janeiro: UERJ, ano 3, n. 4. 1996.

LUCHESI, Ivo. As macroáreas do poder. Cadernos. Rio de Janeiro. Volume 1. 

Autor: Elissandro Souza de Aquino

Produtor cultural, pesquisador, escritor e ensaísta com textos publicados e traduzidos para o inglês e francês. Desenvolve projeto de treinamento organizacional aplicando literatura e contos de fadas.